Praça da Figueira
. Fui a Lisboa, tratar de vários assuntos, a certa altura, já cansada, passei na Praça da Figueira e sentei-me numa esplanada para tomar um sumo.
Estava um daqueles dias quentes de verão, um vento varria com suavidade a praça, dando um toque de frescura ainda que não fosse o suficiente para refrescar.
As pessoas sentavam-se e tentavam ser logo atendidas, sem paciência. Eu, como sempre passei o olhar por toda a praça, observando cada ser que por ali passava, imaginando o que faria o que iria no seu pensamento, qual seria a sua profissão, e qual o local onde se dirigiam. È assim uma espécie de jogo, com o qual me divirto imenso. Sempre adorei criar uma história para cada pessoa que passa. Alguns momentos depois, absorta nos meus pensamentos, vejo que há uma senhora que se aproxima da esplanada em que eu me encontrava.
Enquanto sonhava, tudo era entre o real e a fantasia, agora eu estava a sentir um entusiasmo diferente.
Aquele rosto era-me familiar.
Ela deveria ter mais ou menos, uns setenta anos, mas ainda, era uma senhora bonita e elegante.
Não me conseguia lembrar de onde a conhecia. Sem dar muito nas vistas eu não parava de observar, o seu nervosismo era notório. Estava acompanhada de duas crianças um menino e uma menina.
Sentou-se tal como eu na esplanada do mesmo café, e depois de pedir ao empregado o que desejava, olhou o relógio várias vezes, e ao mesmo tempo olhou à sua volta.
Eu vi claramente que ela estava a espera de alguém. Devia ter marcado encontro com algum amigo ou familiar. E mais uma vez eu comecei a fazer uma história.
Ela esperando alguém, e eu preenchendo um vazio. Estava naquela hora em que a natureza se abre ao sobrenatural, e ou apreciamos tudo até ao final ou liricamente ironizamos sobre aquilo que imaginamos poder ter acontecido. Entretanto chegou a pessoa por quem ela esperava.
Os seus olhos brilharam de uma maneira como eu nunca tinha visto, ela ficou radiante, com uma alegria descontrolada, levantou-se para abraçar e receber aquele abraço que só acontece quando se ama até ao infinito. O céu, mudou de cor iluminado com se derrepente as nuvens amadurecessem, e tudo ficou com aquela cor onde o amor já não se esconde mas se mostra.
Nesse momento a minha história passou a ser real.
Novamente vi que aquele cavalheiro que chegou também me era familiar.
Continuei na tentativa de me lembrar daquele rosto, no meu cérebro viajavam imagens à procura.
Ela mostrava as crianças e perguntou se também ele tinha netos, ele beijou os miúdos com carinho e continuou a olhá-la com um sorriso de amor e felicidade.
Já não se viam há muitos anos.
Naquele momento fez-se luz no meu cérebro, era da Beira que eu os conhecia.
Eles não se viam desde a descolonização, queriam saber tudo um do outro, falavam, e faziam perguntas quase ao mesmo tempo. Anterior a si mesma, a linguagem nascia dos anseios que os dois sentiam.
Naquele momento não havia mais ninguém na praça. Com aquela ardente e súbita alegria, deixaram de ver nada à sua volta, estavam eles apenas eles no seu intimo prazer de reatar o amor de tantos anos, ali no fim de uma tarde onde o sol se esvaía para o mar, restavam apenas aquelas pétalas de explosão, que incendiava a luz dos seus olhares famintos daquele amor, que o tempo não apagou.
Aquele era um amor antigo, mas um amor clandestino. Ambos eram casados quando se conheceram mas o destino tem destas coisas, não sei se alguma vez o viveram com intensidade, mas o olhar que passava de um para o outro desvendava muitos mistérios.
Nunca tiveram coragem de se desligarem das suas famílias, mas não conseguiram que manter aquela paixão invisível.
Todos comentavam mas nunca ninguém tinha certezas. Alma triste destes amantes, tão triste que até parecem nascidos dos nossos olhos, quando há uma lua no céu e o canto de um rouxinol anunciando o final de mais um dia.
Levantei-me, tinha que seguir o meu caminho, eu vivia em Setúbal e estava na hora de regressar.